Entre e fique a vontade!
Esse é o cartão de visitas da web. A porta de entrada de um meio que, cada vez mais, ocupa um importante papel na vida de milhares de pessoas por todo o mundo. Um lugar onde pode-se desfrutar de total liberdade de expressão, seja para criar ou recriar. Um espaço que ainda está sendo descoberto, mas que já determina áreas de debates públicos e, principalmente, de diversos públicos.
E, é por todo o poder ao qual está sendo acometida, que a internet gera tamanhos debates em torno de seus limites e deveres. Por isso, que muitas vezes, este meio acaba sendo desprezado pelo temor de quem não conhece suas ferramentas e seus poderes.
Se com a descoberta do rádio, da tevê ou do telefone tínhamos uma revolução no cotidiano da sociedade, com a internet o processo foi (é, e ainda vai ser…) basicamente o mesmo: susto, medo, desprezo, uma incrédula aceitação e por fim, a paixão. Assim como os outros meios desenvolvidos ao longo da história da humanidade, a internet teve suas fases e agora, pode-se dizer que, vive seu êxtase. Mas, nem só de glória e paixão vivem as inovações proporcionadas pelas constantes revoluções tecnológicas. O debate sobre o uso correto ou incorreto destes meios, o aproveitamento indevido de propriedades alheias, a (des) valorização do sujeito como criador de determinado produto são alguns dos fatores que norteiam as discussões sobre o poder atribuído a este meio, que é a internet e as ferramentas por ela disponibilizada.
No meio de toda essa revolução causada pelo acesso cada vez maior da internet surgem os blogs, também chamados de diários pessoais. Estes diários, surgidos por volta de 1999, nasceram da necessidade de tornar online rotinas diárias dos, então, blogueiros. Assim começou o que hoje é mais uma ferramenta (poderosa) de comunicação social. Por isso, o debate aqui travado pretende abarcar a discussão sobre os blogs e blogueiros em atividades jornalísticas. Mas para tanto, parte-se do princípio dos velhos e conhecidos conceitos de jornalismo.
Jornalismo é a atividade profissional que consiste em lidar com notícias, dados factuais e divulgação de informações. É a coleta, produção, edição e publicação de informações sobre os mais variados temas em pauta. A atividade jornalística depende da sensibilidade de seus profissionais na busca e captura de informações. E, ao contrário do que muitos pensam, não é simplesmente escrever. É saber como e o que escrever, no momento certo, ouvindo as pessoas certas (ou pelo menos tentando) e ter sempre em mente o papel que lhe é concedido. Garantir a diversidade das vozes e questionar a ausência dela. Ser jornalista é, então, fiscalizar, estar de olho aberto, sempre atento. É por essas e outras que desde há muito tempo que o jornalismo vem sendo considerado o “quarto poder”, aquele que vigia e guarda os demais poderes da democracia.
Ser o quarto poder não é (ou não deve ser) tarefa fácil e simplória. Mas, ser o “quinto poder”, como cita Catarina Rodrigues em Blogs e fragmentação do espaço público, onde cabe aos blogs esta tarefa, é ainda mais comprometedor. Vigiar a imprensa e garantir que sua atuação seja exatamente conforme seus conceitos requer precisão e muita audácia.
Seria dos blogs esta função de guardar o “quarto poder”? A própria autora desconsidera esta hipótese ao final de sua discussão, denominando-a de utópica, afinal por mais livre que seja o espaço nos blogs ele ainda é uma ferramenta em construção. Ainda há muito a ser descoberto e utilizado nesta ferramenta. Mesmo porque a vigia do “quarto poder” será (ou é) melhor desenvolvida pela sociedade e pelos indivíduos que a compõe. Da mesma forma, como Rodrigues cita que “os weblogs podem ser jornalismo, mas não por serem weblog”, quer dizer, esta ferramenta pode até ser considerada atividade jornalística, mas pelo valor de seu conteúdo e por quem esse conteúdo foi produzido, não pela ferramenta em si.
A discussão sobre blogs ainda é recente. É uma discussão que acontece de forma rápida, como o seu desenvolvimento. Por isso, muitas vezes, as reflexões acontecem num cunho mais imediato, sem profundos debates.
Assim, vale lembrar que os blogs, conforme Raquel da Cunha Recuero em Warblogs: os blogs, a guerra no Iraque e o jornalismo online, não podem ser definidos como base em apenas uma categoria de publicação, pois trabalham como websites pessoais, com microconteúdos e atualização freqüente de suas informações (que podem ser opinativa, pessoal ou construída através da filtragem de outras informações) e se organizam em função do tempo, assim como a atividade jornalística.
É por todo o tratamento que dá a informação que os blogs são tidos por muitas pessoas como ferramenta jornalística. E não o são. Os blogs são ferramentas particulares de acesso a qualquer indivíduo, que irá usa-la conforme suas necessidades, vontades e desejos. Diferente do jornalismo, os blogs (blogueiros) não têm responsabilidade social, não que estejam acima do bem e do mal, mas a eles não foi acometida a função de informar com precisão, veracidade, neutralidade e objetividade. “Aquilo que é veiculado em um blog não tem a pretensão de ser uma informação ‘neutra’. Ao contrário, existe o pressuposto claro de que alguém escreve e que a informação corresponde ao relato, à visão ou a opinião deste alguém sobre o evento”, cita Recuero.
Assim, ao perceber a diferença entre blogs e a atividade jornalística em si, cabe avaliar as transformações causadas por este meio na atual conjuntura da profissão. Modificações estas que produzem “uma violenta quebra de paradigmas no jornalismo” (RECUERO, 2003, p. 04), onde o espaço para manifestação de idéias, pensamentos e crítica é totalmente aberto e com ampla abrangência. Resultado disso: a profissão do jornalista, cada vez mais, é analisada. Analisada por vários ângulos e diversos olhares. É esta relação de troca entre jornalista e receptor (agora também participante do processo) que acrescenta à profissão novos valores e novas tendências. O imediatismo que todos desejam não faz o público desmerecer ou rejeitar uma análise mais concisa feito pelo repórter. E o repórter, constantemente analisado, desenvolve seu trabalho ainda com mais veemência.
Esta característica pode ser percebida tanto no jornalismo impresso quanto no jornalismo online, no qual as respostas vêm ainda mais instantâneas. Esta possibilidade de cada indivíduo participar e apresentar a sua opinião no espaço público é o que faz o público se aproximar da comunicação. Dessa forma, além de valorizar opiniões e considerações individuais, estas intervenções proporcionam ao jornalista resposta imediata ao seu trabalho.
Pode-se destacar, também, outra diferença nos materiais produzidos e divulgados pela maioria dos blogs: “a ausência de conflitos de interesses”, como cita Lawrence Lessig em Cultura Livre, conflitos estes enraigados em toda disputa econômica e comercial de muitas (senão da totalidade) das empresas de comunicação. Nesse sentido, Rodrigues destaca que “os meios tradicionais são criados por entidades hierárquicas” (RODRIGUES, 2006, p. 69) que super valorizam o poder comercial da informação, esquecendo o seu caráter social.
Essa participação cada vez maior dos públicos altera os tradicionais mediadores dos conteúdos jornalísticos através dos blogs, que propiciam maior espaço para indivíduos (não jornalistas) expressarem suas opiniões transformando o fluxo de informação, “característico dos veículos de comunicação de massa através dos quais a sociedade acostumou-se a escutar” (RECUERO, 2003, p. 15).
É essa democratização dos meios que deve ser celebrada. Valorizar estes espaços como espaço de debates públicos abertos a todos os interessados e não tentar fazer de conta que tudo o que é publicado é jornalismo. Isso reduz a questão e aponta para mais uma inquietação: “a rede não distingue a distribuição do material” (LESSIG, 2004, p. 42). Por isso, faz-se necessária uma distinção do que é ou não resultado da produção jornalística. “Vivemos em meio a uma sociedade da informação que encontra sua máxima expressão junto à internet e a ideologia do free flow” (RECUERO, 2003, p.10).
E, é esse o momento de aproveitar os benefícios oportunizados pela tecnologia. Como cita Rodrigues, a cada novo meio descoberto apontam novas esperanças e expectativas ao público e os blogs vêem em um momento em que a sociedade estava “desacreditada de seu papel interventivo”. Sociedade essa, agora com um poder ainda maior em suas mãos. A ferramenta foi dada, basta saber como usá-la da melhor forma para nos tornarmos parte de uma “cultura livre” como cita Lessig, onde exista uma grande abertura para todos criarem seus próprios materiais, respeitando certos limites do direito de propriedade.
Que não sejam estabelecidos limites à criação e ao surgimento de novas tecnologias, mas que elas sejam, sim, discutidas e pensadas da melhor maneira possível. De preferência sem interesses econômicos e comerciais. A fim de que, possa ser praticada a “alfabetização para a mídia”, citada por Lessig, para que a compreensão seja unânime e que os receptores, “viciados em televisão”, levantem do sofá escrevam as suas idéias e suas críticas, para melhorar a democracia, mas que não se auto denominem Jornalistas.
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Referência:
LESSIG, Lawrence. Cultura Livre. 2004. Ed: Penguim Press.
RECUERO, Raquel da C. Warblogs: os blogs, a guerra no Iraque e o jornalismo online. Artigo apresentado no XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – INTERCOM (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação), em setembro de 2003.
RODRIGUES, Catarina. Blogs e fragmentação do espaço público. 2006.
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** Texto desenvolvido para a G2 da Oficina de Webdesign, ministrada pelo professor Érico Assis. O texto foi produzido em uma ventosa madrugada, que amanhecia na sexta-feira, dia 15 de junho de 2007.
PS.: Estou postando hoje, porque havia esquecido que o texto deveria ser postado em nossos blogs produzidos na oficina e alimentados diariamente (mesmo que a mudança não seja tão visível, isso aconteceu…).
A todos uma boa leitura!




