Precipício ou salvação?
“Maldita falácia!” diria o falecido Cristóvão Colombo a Thomas Friedman ao saber da afirmação que o americano espalha por aí de que o mundo é plano. Colombo, que só descobriu as Américas por acaso, deve se revirar no caixão ao ouvir tais palavras. Depois de tanto tempo tendo acreditado não haver nada mais adiante daquilo que os olhos poderiam alcançar, retardando novas conquistas pelo temor de acabar em um precipício, vir alguém tentar convencer-lhe daquilo que ele mesmo já provara o contrário?! Acho que Friedman não teria muito sucesso com o espanhol, embora seus argumentos não se restrinjam a apenas uma visão territorial do mundo.
O mundo plano defendido por Friedman – no texto referente à “Teoria da Dell sobre a prevenção de conflitos” – trata do benefício contido nas relações de mercado para o crescimento social, político e, principalmente, econômico de todas as sociedades. Segundo o americano, o mercado (e só ele) é capaz de assegurar a paz ao mundo. Todos os países que estabelecerem uma relação de mercado entre si, estabelecem, de certa forma, um contrato de responsabilidade social, sem qualquer negação desta condição por parte da sociedade. Assim, Thomas Friedman apresentou a “Teoria de Prevenção de Conflitos”, onde as transações econômicas garantem estabilidade política.
Neste mundo plano todos têm os seus direitos garantidos pelo saldo positivo no mercado. Por vezes, a quantidade de dígitos deste saldo garante uma melhor aplicação de seus direitos. Conforme esta ideologia, o Estado perde, em partes, seu poder, pois quem dita o caminho a ser seguido são as ações financeiras.
É contra estas e muitas outras idéias e ações que surgem as manifestações. Manifestações são atos públicos onde qualquer pessoa que desejar pode expor suas opiniões, revoltas, anseios e angústias. Manifestações são feitas de diversas maneiras e direcionadas aos mais variados assuntos, no entanto, a grande maioria trata das desigualdades sociais e disparidades econômicas. Estas lutas são contra um capitalismo que, quando surgiu (século XV), defendia a derrubada de sistemas hierárquicos, o aumento da liberdade, a diversidade e democracia política.
Uns quebram lojas; outros criam sites; há aqueles que se vestem de palhaço, outros sacodem bandeiras; e ainda há aqueles que entram nas casas de milionários, mudam os móveis e objetos de lugar e deixam um bilhete com uma mensagem de protesto, como em “Edukators”. Um filme alemão, de nome inglês, que mostra um dos tantos movimentos existentes no mundo contrários ao sistema capitalista vigente: Os Educadores. Este grupo se rebela a sua maneira, assim como todos os outros grupos de manifestantes. Lutam para mostrar ao mundo (pelo menos a algumas pessoas) que não é preciso tamanha quantidade de dinheiro para ser feliz. Para rebeldes como estes, há muita diversidade a ser valorizada sem a necessidade de bons saldos; há muita vida em jogo para, simplesmente, considerar o mundo uma plataforma uniforme e imutável.
Estes manifestantes desejam igualdade e, também, liberdade. E é dessa liberdade que Naomi Klein trata em “Cercas e janelas”. Cercas que sufocam e comprimem idéias, pensamentos e desejos. Klein aponta algumas das cercas mais visíveis e mais ameaçadoras ao mundo hoje. O mercado, defendido por Friedman, é uma delas. Disfarçado de bom moço, o mercado capitalista aprisiona Estados inteiros sob a mesma legislação e os coloca submisso ao lucro que deve ser obtido. Eis que surgem, novamente, os rebeldes buscando alguma saída desse sufoco. Às vezes, o boicote a um fabricante internacional de computadores se torna uma janela para escapar das garras do todo poderoso. Um simples manifesto. Um não conformismo difundido entre os amigos. Um congresso anti-capitalismo. Há várias janelas esperando para serem abertas. Algumas vêem a tona de uma forma mais ousada, outras nem tanto. O que muda são as táticas usadas por quem as aplica e a visão pessoal de cada um que as assiste.
Alguns acreditam que qualquer forma de rebeldia só tem a acrescentar poder ao capitalismo. “A rebeldia vende” de Joseph Heath e Andrew Potter é um desses exemplos. O texto aponta que alguns rebeldes e suas formas de manifestações tendem, ao invés de bater de frente com o sistema, torná-lo ainda mais desejado. Segundo Heath e Potter, resultados não surgem de quebra-quebra ou gritaria, mas de “reformas graduais dentro do sistema”. O que os autores colocam é que para alguma coisa dar certo, de certa forma, não deve fugir as regras, pois assim garante seu apoio e sua aprovação em instâncias superiores. Sendo assim, pode-se concluir que Potter, Heath e suas idéias não diferem muito de Friedman e sua teoria da salvação baseada na união promovida pelo capitalismo. Afinal, os dois textos encontram a janela do problema no mercado que, tanto para Klein quanto para “Os Educadores”, não passa de mais uma bem arranjada cerca.
Dessa forma, meio a contragosto, somos unidos em um só bloco, nos tornamos uma só nação. E, “unidos pelo tempo da produção” que Guy Debord coloca – “A sociedade do espetáculo”, 1967 – como o tempo irreversivelmente unificado mundialmente, nos colocamos a serviço do mercado, construindo diariamente o enredo do “espetáculo mundial”. E o capitalismo segue, escoltado por cercas de todos os lados, sem deixar que se aproximem qualquer um destes ‘baderneiros’ que insistem em levantar suas bandeiras.
Assim, como o gado à espera do abate, vivemos em meio a cercas de todos os tipos. Cercas de um “povo marcado”, de um “povo feliz”. Povo que, como canta Zé Ramalho, contempla sua vida numa cela esperando uma possibilidade de ver esse mundo se acabar, ou, para os mais otimistas, para ver este mundo mudar. Afinal, é necessário que não esqueçamos da frase: “a utopia é necessária para continuar caminhando”.
É por isso, e pela ideologia que seguem os movimentos, que aponto a luta dos ‘rebeldes’ como imprescindível ao desenvolvimento de uma sociedade mais congruente. Afinal, estes movimentos, por algum motivo, assumiram a responsabilidade de defender direitos iguais arriscando perder o seu lugar na cadeia de desenvolvimento proposta (imposta) pelo sistema capitalista. Pessoas que Friedman considera ora como “ociosos”, ora como “patifes”.
Talvez seja possível dizer que as táticas usadas pelos manifestantes não sejam as mais adequadas, ou que as janelas estejam um tanto encobertas, mas o mais certo é que talvez, e somente talvez, o mundo plano proposto por Friedman acabe, realmente, num precipício. O mesmo precipício temido pelo descobridor das Américas.
*** Para a disciplina de Comunicação Comparada II.




